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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Soneto de tortura e desencanto


Não sei que angústia me incomoda o peito que não posso estar firme nem parado.Com o pensamento sempre desvairado,falta-me calma até quando me deito.
A noite vago as ruas, odeio o leito,não durmo, não descanso, não me enfado,não fujo, não me mato, e o rosto irado até de rir perdeu a forma e o jeito.
Por isso não te admire, amiga minha,que ternura hoje em dia me careça na voz, que tantas vezes te acarinha.
Mas é que sofro de sentir diverso:e onde repousarei minha cabeça, se a dor humana não couber num verso?
Ângelo Monteiro

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Eu deixara este verde como herança


Eu deixara este verde como herança,se do peso do verde, libertado,pudesse o mar em mim enclausurado,rebentar as barreiras da esperança.
Ó ditoso país da remembrança,cujo mar não me afoga, mesmo irado.Mas se divide em dois, e desmembrado,abre lúcida margem que me alcança.
Tal não é este mar, sempre agitado,que trago dentro em mim, capturado,na fé, no amor e na desesperança.
Como quem traz em si a força e o fado.E, posto que este mar seja sonhado, eu vos deixo o seu verde como herança.



Ângelo Monteiro

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

A fila



Dos manequins o sangue plasma sua história.Portam roupas diversas e um sonho comum.Eles estão na fila - satélites sem glória -girando sem parar seu destino nenhum.
Eles estão na fila, através das idades,incensando o best-seller e o último modelo.A lista telefônica é a sua identidadee a crônica social seu derradeiro apelo.
Travestidos da vida e amadores da praça vivem com toda força o nada e sua usura:qualquer canto de página é u'a santa escritura qualquer esquecimento é maior que a desgraça.




Ângelo Monteiro